Para falar sobre agenciamento mediado resolvi escolher o celular por conta de sua onipresença no dia-a-dia da humanidade. Elaborei três
perguntas e fiz entrevistas informais com quatro amigos de perfis diferentes.
Partindo do pré suposto de que o telefone móvel serve para conectar pessoas através da comunicação mediada por um artefato tecnológico, é
incrível a quantidade de funções que o mesmo agregou tornando sua função primária, telefonar, muitas vezes renegada a segundo plano. Entrevistei quatro amigos questionando-os sobre qual a função do celular os mesmos mais utilizavam. Surpreendentemente “falar” foi citada por apenas um deles como função primária, sendo que agenda, despertador, mp3 e câmera foram disparados as funções mais lembradas.
Quando os questionei sobre a possibilidade hipotética de uma hora pra outra os meios de comunicação digital (telefone, internet, etc.)
deixassem de existir, como fariam para entrar em contato com outras pessoas, carta foi o veiculo mais citado, seguido por pombo correio e sinal de fumaça (?!?) mas estranhamente nenhum deles citou a possibilidade de ir ao encontro da segunda pessoa para tratar do assunto pessoalmente. Esta questão cabe um aprofundamento no sentido de que realmente os meios de comunicação - ou tecnologias de distribuição como citados
por alguns estudiosos da área - hoje em dia não só modificaram nossa percepção de tempo (velocidade na transmissão da mensagem) quanto de espaço (distância que a mesma percorre) a ponto de que o usuário desistiria de entrar em contato com uma pessoa se tivesse, em função da situação proposta, que ir ao encontro da mesma como citado por um dos entrevistados.
Com base no cenário exposto perguntei-os: Se pudesse incrementar algum serviço, função ou características não existente atualmente nos celulares qual seriam.
Obtive respostas bastante distintas - em função do perfil de cada um - que vão desde melhorias estéticas (deixar menor, mais fino) até
funções que apontam, de certo modo, uma expectativa por aparelhos cada vez mais “universais”. Convergência de funções. Um dos entrevistados sugeriu que talvez dentre as funções do celular pudessem existir funções que controlassem aparelhos domésticos como portões eletrônicos, interruptores de luz, televisores, etc. Outra pessoa por sua vez sugeriu que dentre as funções do chip, houvesse uma que poderia ser utilizada para identificação pessoal, assim como um CPF ou RG, porque, segundo ele, “as pessoas muitas vezes se lembram de sair com o celular, mas não se lembram de sair com documentos”. A sua presença “online” torna-se essencial para sua identificação, deixando para os documentos oficiais apenas uma função formal. Quem é vivo sempre aparece… Online.
O que podemos concluir, empiricamente, com base nessas entrevistas.
1 - A tecnologia é um caminho sem volta. Perdoem-me os saudosistas, mas infelizmente “o tempo bom que não volta nunca mais” realmente já passou. A internet e as tecnologias digitais realmente afetaram nossa maneira de encarar o dia-a-dia. Nossos relacionamentos, mais do que
nunca, são mediados por máquinas e a socialização deixou de ser uma característica pessoal para se tornar uma ferramenta do mundo 2.0
2 - Impossible is nothing! O slogan da Adidas retrata nossas expectativas. Enquanto designers interativos devemos ter a consciência de que
as pessoas vivem em um mundo onde o impossível não existe mais, a informação está ao alcance dos dedos e celulares podem fazer de tudo, até mesmo telefonar.
3 – “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.” Da mesma forma que não se encontra um aparelho celular com
uma única função – telefonar – não se encontra pessoa que se satisfaça com o básico. Todos querem mais, querem melhor, querem ser surpreendidos e tudo pra ontem. Nosso papel enquanto designers interativos vai além da criação de artefatos que sejam úteis, usáveis, acessíveis e etc. eles devem despertar o senso crítico, gerar questionamentos e principalmente emocionar em um mundo frio como uma tela touchscreen. Pronto falei!