“The important waves of technological change are those that fundamentally alter the place of technology in our lives. What matters is not the technology itself, but its relationship to us.”
“As mais importantes ondas de mudança tecnológica são aquelas que fundamentalmente alteram o lugar da tecnologia em nossas vidas. O que importa não é a tecnologia em si, mas a forma como ela se relaciona conosco.”
O trecho acima abre o artigo escrito por Mark Weiser e John Seely Brown (The Coming age of Calm Technology) que mostra, ainda de forma introdutória, uma tendência que previam para a primeira metade do século 21. A computação pervasiva, ou computação ubíqua.
No artigo os autores fazem uma interessante comparação entre as diferentes formas de relacionamento Homem - Computador durante a última metade do século 20.
No início da computação, os Mainframes eram divididos por várias pessoas, com o advento do PC as pessoas passaram a ter um relacionamento mais íntimo e exclusivo com a máquina, a forma de interação passou a ser mais intensa e direta. No ambiente de computação ubíqua proposto pelos autores vários computadores passarão a dividir um mesmo ser humano colocando em questão até mesmo o conceito do que é ou não é um computador.
No ambiente da computação ubíqua a comunicação e a interação computacional deixam de lado as tradicionais telas e devices para invadirem novas plataformas. Teremos centenas de pontos de acesso a esta nova forma de comunicação em um único quarto. Cadeiras, paredes, mesas, roupas, carros, etc., a qualquer momento e em qualquer lugar teremos acesso a informação através de microcomputadores que conversarão entre si.
A proposta é que a computação ubíqua seja inserida no nosso cotidiano integrando e fazendo parte de nossas rotinas diárias de tal forma que pareça invisível. A própria percepção do uso da tecnologia será alterada.
Steve Howard, Jesper Kjeldskov e Mikael Skov (Pervasive Computing in the Domestic Space) fazem a distinção de “ferramentas” para “não ferramentas” de acordo com o contexto de uso. Uma ferramenta pode ter diferentes interpretações quanto ao seu uso variando o contexto onde a mesma é utilizada. Por exemplo, um computador no trabalho é visto como uma ferramenta de trabalho, mas no ambiente doméstico pode ser utilizado como uma ferramenta para o entretenimento, variando-se o significado conforme o contexto em que a “ferramenta” é utilizada.
Partindo do conceito de diferentes interpretações que se dão para a ferramenta computador variando seu contexto de uso, devemos ficar atentos a forma como projetaremos os vários devices que acomodarão essa tecnologia ubíqua. Seu uso deve ser extremamente intuitivo e prazeroso, não necessitando qualquer habilidade ou conhecimento específico prévio para a utilização destes devices. É necessário reforçar que em alguns casos os novos devices da computação ubíqua não terão a estrutura padrão dos computadores de hoje, com telas, teclados e mouses.

Porém, a partir deste ponto surge uma questão. Neste contexto de uso de tecnologia, imaginamos um mundo onde todas as pessoas possuem o pré requisito de saber lidar intuitivamente com artefatos tecnológicos, o que é bastante comum em se tratando de países desenvolvidos ou em processo de desenvolvimento. Porém como podemos transpor as barreiras do conhecimento que a evolução tecnológica nos proporcionou quando lidamos com comunidades de conhecimento específico, não necessariamente tecnológico? Paradoxalmente, a tecnologia que deve ser intuitiva e invisível, de fato somente o é para o grupo e contexto onde a própria foi desenvolvida. Exemplo, o ato de acender a chama de um fogão só será intuitivo e invisível para a comunidade onde o uso do fogão é comum e rotineiro, em comunidades isoladas do oriente médio a comida é feita em “fogões” artesanais no chão batido muitas vezes compostos por apenas alguns tijolos e galhos secos onde se atira o fogo. O exemplo também funciona no modo reverso, acender um fogão utilizando outras fontes que não o gás e fósforo requerem algum aprendizado.
Partindo do principio que culturas diferentes possuem diferentes níveis de aprendizado tecnológico, podemos sugerir dois caminhos para o desenvolvimento de um design centrado no contexto de uso:
Design Sensitivo: Artefatos que reagem à informações típicas dos cinco sentidos humanos. Exemplo, um dispositivo que emita uma informação sonora quando colocado próximo ao ouvido, ou um agasalho que aqueça mais quando o usuário sente calafrios.
Design Cultural: Onde o artefato é produzido de acordo com princípios e aprendizados da cultura local. Exemplo, na cultura indiana a noção de privacidade é completamente distinta da nossa, dificilmente se tem portas nos quartos. Desta forma qualquer artefato que possa vir a ser produzido tendo como base a relação do objeto porta com a particularidade “privacidade” terá menor impacto nesta cultura.
A partir dos exemplos citados acima voltamos à questão principal dita na frase que abre o texto. “O que importa não é a tecnologia em si, mas a forma como ela se relaciona conosco”.
Sabendo disso devemos ficar atentos para o contexto de uso durante a criação de artefatos ubíquos. Transformar ferramentas em não ferramentas e utilidade em prazer de uso serão cruciais para determinar o sucesso ou fracasso de um artefato em tempos de computação pervasiva.
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